Fiz as pazes com o amor próprio

Pois é, nós brigamos feio. “Amor Próprio” foi embora de casa, chateadíssimo comigo. Saiu batendo a porta. Eu pensei que seria feliz sem ele… Mas as coisas não saíram bem como eu imaginava. Achando que estava bem, acabei me metendo nas histórias mais improváveis… Paixões erradas… Ilusões inventadas. Quando me dei conta, estava totalmente perdido, triste e amargo, rastejando por migalhas confundidas com amor.

Depois de muitas perdas e frustrações irreparáveis, admiti que eu jamais conseguiria seguir em frente sem ele. Percebi que era hora de procurá-lo e acertar as nossas contas. Não foi nada fácil encontrá-lo… Procurei em todos os porões do pensamento, e nada! Mergulhei de cabeça nos lodos da alma e também não achei nada!

Eu já estava quase desistindo quando, finalmente, encontrei-o num casebre todo junto, lá nos fundos do coração. Nosso reencontro não foi fácil. Apesar de triste, “Amor Próprio” continuava belo e de riso fácil. Já eu… Estava um verdadeiro trapo humano. Ele não me reconheceu. Olhou-me com profundo desprezo, estava muito magoado.

Quando o vi bem ali perto de mim, tentei abraçá-lo, mas ele se recusou.

-Não sou trouxa. -disse-me. -Para me reconquistar você vai ter que ralar muito. Comece limpando esta casa suja… Isso aqui está imundo, você não tem vergonha?

Obedeci.

Imediatamente passei um pano molhado em todos os móveis cobertos de expectativas frustradas. Os lençóis e cobertores estavam todos encharcados de lágrimas que derramei por todas as pessoas que me iludiram. Tive que lavar um por um e pôr pra secar! Estavam encardidos também, de tanta culpa. Os vidros das janelas também estavam cheios de sujeiras impregnadas, uma grande camada de carência!! Esfreguei até ficar transparente, brilhante!

Para falar a verdade, aquela casa fedia! Tudo tinha o cheiro horrível da tristeza.

“Amor Próprio” sentou-se numa poltrona e observou o meu trabalho incessante, como se fosse um patrão muito cruel.

Na verdade…

Na verdade ele é meio cruel mesmo, não porque ele goste de ser assim, mas porque não tem outro jeito. Afinal de contas, “Amor Próprio” não é alguém a ser dispensado assim, como se fosse um copo descartável. No entanto, todo mundo faz isso com ele em algum momento da vida. Normalmente ele é trocado por uma paixão qualquer, uma dessas ilusõezinhas cretinas, sabe?! Quando a paixão acontece, o primeiro a se ferrar é esse coitado… Jogado às traças, esconde-se num canto escuro qualquer e espera pacientemente pelo nosso retorno. Geralmente, quando voltamos para buscá-lo, estamos no fundo do poço.

Resgatá-lo é trabalho duro. Para reconquistá-lo, tem que fazer por merecer.

“Amor próprio” não tolera ilusões e tem horror a trouxices. Ele sabe muito bem valorizar a reciprocidade e não se contenta com menos. “Amor próprio” adora compartilhar seu carinho com alguém especial, mas também sabe conviver com a solidão, caso ela apareça.

“Amor próprio” cobra caro quando é abandonado assim, a troco de uma ilusão…

A nossa reconciliação não foi fácil. Tive que provar que eu estava diferente e que tinha aprendido a lição. E ele só voltou pra mim quando viu que, realmente, eu o tinha colocado em primeiro lugar na minha vida. Fizemos as pazes, enfim.

 

Pisciano, escritor, leitor e também uma metamorfose ambulante. Adora se perder em sentimentos escritos e nem sempre consegue se encontrar em suas próprias palavras. Personagens, narrador e escritor se fundem no que ele escreve. Conheça o blog: www.hugoribas.com.br

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