Não foi culpa sua, foi o destino

“Alô? Ah, ainda bem que foi sua secretária eletrônica que atendeu, é que eu não tô preparado para ouvir sua voz. Não agora, depois de tanto tempo. Pra te dizer a verdade, eu já decorei sua caixa postal: “Oi gafanhoto. Não posso te atender agora, o dever me chama. Deixe seu recado, quem sabe te ligo depois?”. Eu até perdi a conta de quantos recados tentei gravar, é que eu não conseguia colocar para fora todo esse discurso barato que ensaiei na frente do espelho.

Não sei o que aconteceu com a mensagem que deixou, parecia estar faltando pedaços, como se não tivesse sido entregue por completo. Sua voz falhava. Era medo ou erro da operadora? Logo eu que nunca tive o costume de ouvir minha caixa postal, resolvi arriscar a gastar o pouco crédito que me restava e – por sorte ou culpa do destino – era você.

O que eu queria te dizer é que… Bom, eu também não sei o que dizer mais. Ensaiei tanto que esqueci. Eu tô te ligando porque eu também sinto a sua falta. Também tá doendo aqui, mas quem escolheu ir embora primeiro foi você. Eu sei que a distância tava grande demais e que sempre detestou esperar, mas o que nos separava era a frieza que ficou entre nós, ela sempre foi maior que todos esses quilômetros. A nossa história que se complicou. Não te culpo por ter desistido.

No fundo dos seus olhos e do meu peito eu sabia que não estava tudo bem. A gente sente, sabe? A noite sempre chegava para nos mostrar isso quando nos deitávamos e não nos importávamos mais em mandar uma simples mensagem dizendo “boa noite, amo você.” Ambos sabem dos seus erros, das suas faltas e pecados. Não sei dizer até hoje quando alguém me pergunta o dia que eu percebi sua distância. Eu realmente não sei onde nos perdemos, meu bem, mas pro tanto que eu te queria, o perto nunca bastava.

Eu te quis muito. Desculpa por não ter ido naquelas suas festas de família, por sempre estar longe demais e não ter feito tanto esforço para passar os feriados com você. Desculpa por nunca ter te dado girassóis. Mas eu queria que você soubesse que eu te dei todo amor que eu consegui. Às vezes você precisa morrer de amor para aprender a viver de verdade. Morre mas ressuscita. Foi dolorido para mim também, terminar nunca foi opção. Mas não optamos, nós é que insistimos demais. Continuo aqui te amando, te admirando e mesmo sentindo sua falta e do seu café, eu sei que algumas histórias simplesmente não são para ser. Não foi culpa sua. Foi o destino.”

“Mensagem gravada com sucesso. Para enviar, tecle 1. Para apagar, tecle 2.”

“1”

“Mensagem enviada.”

“Pu pu pu pu pu pu pu…”

Esse texto é em resposta ao “Não podia te esperar para sempre

 

 

23, mineirinha que vive no Espírito Santo. Vivo com a cabeça na lua, com os pés em Marte, mas o coração mora em Saturno, rodeado por anéis que a protegem do excesso de sentir. Tem coração que bate. O meu, escreve. Conheça meu blog também: 1 Quarto de Café

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