A gratidão que ela sente por lembrar das amigas que ela tem

Hoje ela acordou cedo, fez o café e olhou a paisagem catastrófica da cidade passando pela tela da janela da varanda dela. Suspirou. Ainda era cedo. Tinha tempo para boas lembranças. Tempos atrás ela escutou de alguém que lembranças ruins não devem ser tomadas com café da manhã. Melhor evitar.

Lembrou da escola. Do colégio. Das amizades que fez. Do afunilamento das suas relações dos 15 até os 18 anos. Lembrou da sua formatura e de como as meninas estavam diferentes. Lindas, maduras. De como se divertiram e se abraçaram naquele dia. Suas vitórias sempre tiveram aquele incremento de torcida e verdade.

Eram duas. No máximo três. E algumas que não se encaixavam na sinceridade que ela gostava. Mas, que permaneciam porque, às vezes, é bom ter por perto aquele tipo de pessoa que ela não gostaria de ser. Só pra lembrar.

Suas amigas eram sua fonte de energia. Seu calor humano. Aquele abraço de fora de casa, sem ser família, mas que tinha sangue correndo nas veias da alma. Por isso, eram tão fortes como se fossem nascidas da mesma barriga.

Sorriu. E gargalhou ao lembrar das histórias loucas. Histórias de dores, sofrimentos e amores que ninguém poderia saber, só elas.  Que estão guardadas e trancafiadas naquele sentimento de laço.

Até ali, ela tinha conhecido muita gente. Estudos, trabalhos, momentos de descontração. Mas, nada se compara ao que elas vivem até hoje. Se falam todos os dias. Conversam, riem, choram juntas. Pelo WhatsApp, o tempo todo. Já que a presença física vai distanciando com o passar da vida e a demanda de tarefas, a presença afetiva só se fortalece.

Sentiu sorte. Gratidão. Poucas, mas boas amigas. Não queria, nem desejaria mais nada além daquilo que ela tem. Ela conhece histórias de gente que não tem ninguém. Nem consegue sustentar-se amiga ou amigo de alguém por muito tempo. Paciência. Não sabem esses o que estão perdendo.

O WhatsApp apitou. A primeira mensagem do dia. Era uma delas no grupo. A tela da janela voltou a trazer imagens da cidade atrapalhada e bagunçada. O relógio mostrava atraso. A saudade apertou e ela escreveu no grupo: “amo vocês”. Corações foram devolvidos.

Entrou no banho. Lavou a alma, vestiu a roupa.

Fez sua oração e saiu fortalecida pra vida, pela força que vem da força recebida das suas amigas. Sobre a mensagem de positividade no café da manhã, lembrou: Tinha sido uma delas.

Baiano cá do recôncavo. Vizinho de Edson Gomes, Sine Calmon, fã de Dona Canô e dos filhos que ela deixou no mundo. Aspirante a jornalista e sonhador de um mundo melhor. Tem axé correndo no sangue e, entre acarajé e sushi... Ele fica com os dois.

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