Parece não ter coração

Quem a vê de longe sorrindo à toa, deixando o vento bagunçar seu cabelo, pensa que essa garota não tem problemas, e muito menos frustrações, mas a realidade é bem diferente disso.

Ela está sempre assim: leve. De mãos vazias e pés descalços com a vida, como se não houvesse fardos a carregar. Não gosta nem de sacolas de mercado, quem dirá de pesados sacos que vez ou outra precisam ser arrastados devido suas toneladas.

Está solteira há dias, meses, anos, e quando a questionam sobre a vida amorosa só sabe dizer “ah, tá indo”, com um sorriso largo, e logo depois solta sua conhecida gargalhada de quem mal pensa nisso. Nunca usou uma aliança, nunca alterou o status das redes sociais. Nunca apresentou aos pais alguém que ficasse tempo suficiente para participar de dois natais.

Não chora. Meu Deus, acredito que ninguém nunca a tenha visto soluçar, e se já viu, deve tê-la estranhado. Cai, rala o joelho, arranca a tampa do dedão do pé, e não chora. Se frustra, ouve “não”, passa raiva, toma bronca, e não chora. Suas frases são rápidas e precisas, sempre passando a letra inicial maiúscula e o ponto final. E como fala! Fala muito e fala bem. Ela te ganha no assunto, e prova que você está errado, sem fazer esforço nenhum para conseguir isso.

Mas apesar de ser esse mar de firmeza e convicção, ela também é um oceano de sentimentos, versos e histórias.

Ela está sempre sorrindo pois aprendeu com a vida que as dores do mundo são difíceis de viver, porém, necessárias ao crescimento. De tanto apanhar, seu coração parou de bater, e hoje, só espera por alguém que o devolva o sentido de existir. Flui, é livre, por que já foi presa nas garras de quem a tornou posse, quase que de papel passado, e a trancafiou em mundo onde apenas ele podia se aproximar.

Caminha balançando os braços, em passos lentos, por que precisa de tempo para organizar o constante excesso de pensamentos que esconde dentro de si. Enquanto anda, não olha para os lados, pois percebeu que o sentido da vida é pra frente, e o que está ao lado é sempre desconhecido. Não expõe seus pesos, os trazendo nas mãos, pois acostumou-se a abrir os braços e acolher quem está sem forças, e para isso, precisa sempre estar com as mãos soltas, sem nada que a impeça de carregar o peso dos outros.

Vive solteira, mas não apenas por opção. Ela não é criteriosa, não busca o melhor príncipe do mundo, mas em seu passado somou experiências ruins, e aprendeu a não se embarcar no primeiro navio que aparece no cais. Percebeu que há grandes navios que em seu interior não trazem nada, e pequenos barquinhos que oferecem abrigo e proteção ao marinheiro. Passa horas nas vitrines das lojas observando os entalhes e pedras das alianças e anéis que selam um compromisso, imaginando o dia em que também usará uma. Mas não inveja as amigas, fica feliz ao ver em suas mãos a argola de metal que simboliza o amor.

Acredita que um dia viverá para sempre ao lado de alguém que lhe comprará flores e preparará um café domingo de manhã. Alguém com quem brigar, com quem reconciliar, com quem começar e ser diferente. Alguém que não maltrate, que não judie, que não cutuque as cicatrizes até que elas voltem a ser ferida.

Suas músicas falam sobre a vida, sobre revolução, direitos humanos, felicidade, e empolgação. Mas também há aquelas que falam de um grande amor que acabou, de uma história iniciada há tanto tempo, de um sentimento não correspondido, e com essas, bem, com essas ela se entrega. Seus filmes falam de superação, adrenalina, conquistas, e comédia, mas também contam a história de um casal que se apaixonou e lutou para ficar juntos, de um cãozinho que faleceu e deixou a todos com saudade, de uma garota com câncer que ajuda seu namorado a se tornar alguém melhor. Seus livros são sobre atualidades, conhecimentos, inovação, mas também são sobre uma plebeia que se tornou princesa, uma mulher apaixonada, um homem disposto a voltar da guerra por sua amada.

Ela não chora, ou melhor, só às vezes. Mas quando chora, soluça, se acaba, entrega ao universo as dores dos últimos anos em forma de lágrima, e isso dura minutos, horas. Perde a noite de sono pensando no que ouviu, no que viu, no que feriu. Toma longos banhos e deixa as lágrimas se misturarem a água do chuveiro na busca por renovação e força.

Ela é assim: um tremendo não e sim. Parece não ter sentimentos, mas apenas se protege do mundo, porque o que ama, ama demais, e nem sempre é fácil lidar com isso. Guarda dentro de si um vulcão em erupção, e se esforça para mantê-lo adormecido até que alguém chegue e saiba lidar com seus excessos, sem precisar diminuí-los.

Ela é a menina que grita em silêncio, e desenha em palavras o uni-verso. A Deus tudo atribui e, dele, tudo recebe. Sempre flutuando em outros mundos, mas com os pés fixos neste aqui. Como canta Ana Carolina: “é que eu sou feita pro amor da cabeça aos pés, e não faço outra coisa se não me doar”.
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