Cartões românticos me lembram Lucas

Era um dia comum como todas as manhãs de quarta feira no prédio em que moro. Acordei ao segundo toque do despertador, saí do banho com uma agitação estranha, geralmente bebo café na cafeteria embaixo do meu prédio, onde compro meu cappuccino e um muffin, mas estou mudando alguns hábitos, então passei um copo e meio de café e coloquei para levar comigo no meu copo térmico azul escuro. Acordei o andar inteiro com o balançar dos treze chaveiros que carrego comigo ao fechar a porta, limpei os sapatos no capacho para manter o costume, dei bom dia para a Dona Catarina que subia as escadas com o jornal na mão, lembrei de ver minha correspondência, fazia três dias que não a pegava, estava adiantada então desci até o primeiro andar e abri a caixa verde musgo.
Fones nos ouvidos, tocava algo do The Lumineers, copo azul na mão, folheei as cartas e convites misturados, nada de novo, nenhum boleto vencido, a revista mensal. Fui guardar tudo na bolsa e notei na última página da revista algo sobre destacar aquele pedaço e escrever seu nome e o nome do seu parceiro, um cartão de dia dos namorados que já vinha pronto, escrito e até picotado, era só destacar. Mas porque aquilo estava na minha revista? Demorei a assimilar, seria o dia que eu evitei chegar desde janeiro, quando bati a porta do apartamento numa terça e disse: eu nunca mais volto. 
Os minutos adiantada tinham encurtado, corri até a estação do metrô e dei de cara com um anúncio numa relojoaria que dizia: “surpreenda seu amor e ainda ganhe 10% de desconto”. Imaginei que se você tivesse ali comigo diria: “esses publicitários que ficam transformando sentimentos em objetos de desejos.” Enquanto escritoras como eu lutam para transformar as cenas do cotidiano em sentimentos. Tenho tentado continuar fazendo isso, mas mudei muitos desde aquela terça. 
Ana, a editora chefe, tinha me chamado para almoçar num restaurante de comida árabe que havia sido inaugurado na semana anterior, fui meio contra vontade, meus sapatos estavam apertados e machucando bem no calcanhar esquerdo. Ana começou a falar sobre a ideia de seguirmos a temática de empoderamento feminino e retratar mulheres influentes na última década. Fiquei animada, a agitação do pós banho ainda pairava, anotei que precisava pesquisar sobre o assunto, para desenvolver melhor o projeto. Olhei por 30 segundos para um casal na mesa a direita, ele havia dito algo sobre o cabelo dela e agora fazia um afago carinhoso no alto de sua cabeça. Um estranho nó na garganta, o calcanhar doendo. 
Saí da editora com uma ligeira falta de ar, o tempo havia mudado, o típico frio de junho. Peguei o metrô um pouco mais cheio que o normal, buquês, caixas de bombom, um rosa solitária e cartões, inúmeros cartões me seguiram até a porta de casa, eu lembrei daquele da bolsa e por um segundo senti vontade de gritar. Abri a porta da apartamento gelado e me vi com meu único companheiro, meu notebook, onde despejo nas páginas do word tudo o que dói. Dei uma ajeitada na sala, pesquisei algo na internet, um anúncio sobre enviar flores para qualquer região 24 horas por dia apareceu na minha página e eu lembrei do buquê de girassóis que você tinha me enviado no ano anterior.
Tomei um banho quente, daqueles que parecem tirar todo o peso dos ombros, abri um vinho, uma das poucas coisas que tinha na geladeira, enquanto tomava a segunda taça a agitação voltou e eu percebi que na verdade a sensação era saudades de Lucas. Lembrei do nosso último vinho juntos, dos sábados assistindo filmes antigos e do gato cinza e gorducho que ficava horas deitado em meu colo quando ia passar o fim de semana na casa de Lucas.
A vontade de gritar voltou, um grito de tristeza e dor. Percebi que desde o cartão destacado até o anúncio do buquê 24 horas, tudo fazia com que eu lembrasse dele e era essa a intenção, lembrar que o dia dos namorados estava perto e eu estava só. Que eu deveria estar com Lucas. Mas desde a porta batida em janeiro e de eu revelar a ele que não estava mais feliz ali, eu venho vivendo uma espécie de transformação interna. Achamos que iríamos nos casar e tínhamos inúmeros planos juntos. Mas aí eu percebi que precisava ir embora e não me dei nem o trabalho de trazer o que era meu daquele apartamento, como é que eu voltaria lá e diria: quero minhas coisas e nosso amor de volta? Passava um show da Beyoncé no MTV, constatei que jamais dançaria daquele jeito, abaixei o volume e fui escrever, uma das poucas coisas que me tira de momentos sufocantes assim. As palavras não saíram, mas as lágrimas rolaram aos montes, nem eu sabia o por quê do choro. Mas chorei, até a maldita agitação passar. 
Levantei da cadeira e calcei o mesmo sapato apertado, fui até a porta e abri, pensei por alguns minutos no que te falaria caso fosse até a sua casa, ri ao perceber que não conseguiria nem escrever meia frase no cartão destacado da revista para deixar embaixo da sua porta. Pensei por um momento longo em você, no gato cinza e lembrei da mesinha azul que tinha deixado na sua casa, dei um passo à frente decidida em ir até você, quando a dona Catarina me deu boa noite e disse algo sobre o tempo, eu sorri o boa noite de volta e voltei pra dentro do apartamento, para o notebook, para a página em branco aberta. Senti que eu não sabia o Lucas que tinha deixado naquela terça e que não estava pronta para descobrir. Virei para a página em branco e comecei a escrever, talvez eu não fosse ter você de volta nunca mais, mas teria que escrever sobre você o quanto pudesse até você sair de mim, era tudo que eu conseguia fazer, isso e torcer para que aquele dia 12 acabasse logo.
 
Escrito por Raquel de Povoas – Blog Coisinhas.
21 anos, garota do interior, puxa bem de leve o ‘R’ na hora de falar. Viciada em café recém passado, seriemaníaca de carteirinha, apaixonada pelo céu, pelo Sol, por cachorros e pelo Dan, é claro. E escreve também no “O mundo da Lari”.

Comments

comments

Talvez você goste de...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *