Ela se tornou uma mulher forte

Desde pequena todos os que viam seu riso fácil e sua maneira bonita de ver a vida diziam que assim, iria se iludir muito, e se frustrar mais ainda.

Se foi profecia, obra do destino, acaso ou mera coincidência eu não sei, mas a verdade é que ela deu com a cara na parede ao menos uma vez (por dia). Nas amizades, na família, no trabalho, no amor, em tudo. Sempre que se permitia viver algo novo, a menina acabava se machucando, por fora, por dentro, ou pelos dois lados, e isso a fez pensar diversas vezes sobre o porquê de tantas lágrimas.

Houve muito quem lhe disse que ela devia ser mais quieta, recatada, do lar. Mas ela insistia em ser falante, exagerada, do bar. Disseram que ela devia ser mais fria, se importar menos, demonstrar menos. Mas ela teimava em ser afetuosa, amante das pessoas, sempre acreditando que elas tem um lado bom, por difíceis que se mostrem.

Levou muitos foras, viu seu coração ferir, partir, sangrar. Passou noites e noites pensando em qualquer era seu problema, o que ela tinha de tão errado, afinal, e como de costume, seguiu o roteiro, tomou um longo banho, se encolheu na cama e dormiu em meio aos soluços, acordando no outro dia, com a sensação de que havia levado um porre de vodka.

E errou. Meu Deus, como ela errou!  Entregou seu coração a quem não merecia, doou seus minutos a quem não se importava, dividiu suas histórias com quem não queria ouvi-las. Abriu a porta de seu mundo para entrada de quem não merecia estar nem na calçada. Ofereceu café e puxou a cadeira para quem não queria nem um copo de água. Emprestou suas melhores memórias a quem lhe causaria algumas das piores.

Quanta coisa ela enfrentou.

Mas apesar dos pesares, mesmo estando tudo negro ao seu redor, ela sempre escolheu amanhecer novamente, e como cantou Ana Carolina, ela também cantava “que foi feita pro amor da cabeças aos pés e não faz outra coisa se não se entregar”, e assim, sempre surpreendeu a todos iluminando o mundo dos outros quando o dela própria estava enfrentando um apagão.

E de tantas histórias, de tanto sofrer, ela aprendeu a controlar a própria situação. Aprendeu que não, o problema não era sua personalidade, nem seu jeito alegre e descontraído; o problema é que ela sempre optava por homem pequeno, e não há como um homem pequeno dar conta de uma grande mulher. Aprendeu que a vida é assim mesmo, feita de altos e baixos, e que nos altos, você vai voar, e nos baixos, brilhar em cima do salto. Aprendeu que amigos são os que não te abandonam mesmo quando você merece que eles façam isso, e não aqueles que te convidam para uma balada nova simplesmente porque você é a única que dirige.

Aprendeu a não dar ouvidos à tudo o que ouve; percebeu que sempre terão uma opinião dela, e que nada do que faça vai dar conta de mudar isso. Aprendeu a apreciar a própria solidão, e mais que isso, a melhor companhia que pode ter é ela mesma. Engoliu o choro, secou a lágrima, refez a maquiagem e voltou a dançar. Ela nasceu pra isso; veio ao mundo para encantar, e não para ser encantada.

Passou a enxergar tudo de longe, sempre à frente 10 passos. Enquanto você vem com a farinha, ela já está comendo o bolo. Foi estudar, viajar, trabalhar, colecionar emoções ao invés de nomes. Abriu espaço para as boas energias fluírem em seu interior, e assim, pôde colorir ainda mais o mundo. Aprendeu seu próprio valor, encontrou sua beleza, percebeu que as pessoas a tratavam como ela permitia que a tratassem, e então, tomou postura e sem destratar ninguém, provou seu valor.

Passou meses sem chorar. Já não sabia mais o que era isso. Aprendeu que lágrimas são para ocasiões especiais e não para sofrimentos de pequeno porte. Deixou o coração igual ao cabelo: limpo, solto e livre. Mas amarrou uma âncora ao cérebro para que o vento das emoções não a carregassem de novo. Ela se tornou uma mulher forte, independente, sem medo do destino, com coragem para dar de frente com a vida, e isso, meu bem, não é para qualquer um.

Ela é a menina que grita em silêncio, e desenha em palavras o uni-verso. A Deus tudo atribui e, dele, tudo recebe. Sempre flutuando em outros mundos, mas com os pés fixos neste aqui. Como canta Ana Carolina: “é que eu sou feita pro amor da cabeça aos pés, e não faço outra coisa se não me doar”.

Comments

comments

Talvez você goste de...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *