Por favor, quebre meu coração

A gente sempre se acostuma e nem percebe. Se acostuma com aquela dor nas costas, aqueles quinze minutos de almoço, com aquela pressa no fim do dia. A gente vai passando cansado sobre tudo e esquece até de olhar o céu, de se demorar naquele abraço, de dizer o que realmente sente. E é acostumando com tudo, que o mundo vai se tornando banal. E é engraçado porque mesmo assim, a gente continua e nem entende o porquê. Porque talvez a gente acredita tanto na ideia do amor, que esquece de vivê-lo. E é incrível a capacidade humana de tolerar àquilo que não lhe faz bem. E aos poucos a gente vai se ferindo pra manter viva aquela ideia de que tudo passa, que tudo vai ficar bem, que tudo é passageiro, mas esquece que a vida é finita também.

E não é que me preocupe demais com a morte. Pra mim ela acontece em vida, quando decidimos ignorar tudo aquilo que toca o coração, quando a gente não se surpreende mais com nada, quando temos medo. E não existe angústia e sofrimento maior do que daquele que teme se ferir. Porque é quando você finalmente se quebra… Que sua sensibilidade pode nascer. Porque se quebrou, é por ter sido sempre frágil. Sensível não é uma pessoa tão vulnerável quanto se pensa, mas aquela que morreu muitas vezes, tantas e tantas vezes, para aprender a sentir. Que se abre de tantas e tantas formas, a toda sorte de experiências, boas e ruins. A gente se engana com o coração, achando que ele aprende de outra forma, mas é sua abertura, nossa maior oportunidade para crescer.

E quando a alma se lança, na menor ou maior das coisas, toda razão vem ao chão, e não importam os motivos, as razões, as verdades. Nenhuma será maior, nada será valioso, do que o momento de quando o coração encontra a tempestade. Somos feitos para o estrago, para quebrar tudo aquilo que ainda é falso em nós mesmos. Pra jogar tudo no fogo da vida e deixar queimar, porque no fim, a gente sempre resiste, seja insuportável o peso, ou o implacável fim que nos espera. Nada é maior do que o desejo humano de superar as estrelas, de se tornar parte do próprio infinito. Mas a gente se prende e continua se prendendo em tudo aquilo que nos apegamos, sem lembrar que nosso espírito é maior.

Quanto melhor algo te fizer, quanto maior o amor que viver, quanto melhores forem suas intenções, maiores serão suas chances de quebrar. É por isso que a gente se acostuma tanto com o que tem, por isso, a gente esquece de olhar ao belo, de viver o profundo. Porque tudo sofre o risco de perecer. E por isso, é inevitável sentir. Cada dor é feita sobre medida pra caber no peito. Seja grato por cada tombo, cada queda, cada fratura, nada disso foi em vão. E cada um dos pedaços que ficaram, vão se tornando parte da maturidade que aos poucos se fortalece lá dentro. Lá no fundo. Dói, eu sei. Mas é a dor que nos desperta para a vida. Desde o começo foi assim, não foi? É como aprendemos a respirar, a andar, a viver. E é aos poucos que a gente dá conta de andar nos caminhos mais estreitos da vida. E se ainda tiver dúvidas e me encontrar andando por aí, então, por favor. Quebre meu coração.

Thomas Magan/Meu coração tempestade

Lucas Augustus, ou mais conhecido pelo pseudônimo de Thomas Magan. Tem 27 anos, morando no interior de Minas Gerais e é criador da página “Meu coração tempestade”.

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