Carta à Tristeza

Amiga de quase todas as horas, sei que você vai chorar quando ler esta carta, mas quero deixar de ver você por uns tempos. Vai ser difícil para mim, pois me acostumei à sua presença. Porém, não vejo mais razões para mantermos tanto contato. Não nego a sua importância. Em diversos momentos difíceis da minha vida, você permaneceu comigo, mesmo quando todos se afastaram. Só que, com você, sinto que não dou sequer um passo a frente.

Esse seu pessimismo me atrapalha. Tenho tentado evitar você de todas as maneiras e isso não é legal. Mas basta você chegar e lá se vai minha alegria. Não suporto mais os seus assuntos mórbidos nem a sua expressão sem vida. Hoje percebo que perdi anos de minha vida ao seu lado, Tristeza, acreditando em tudo que você, grosseiramente, enfiava na minha cabeça.

Você é uma péssima conselheira para os seus amigos. Sobre seus elogios, o único que eu lembro de ter ouvido de você, foi que eu fico bem de olheiras. Mas entenda, não estou dizendo que quero acabar com você para sempre. Sei que permaneceremos ligados, de uma forma ou de outra, pelo resto da vida. E podemos muito bem ter os nossos momentinhos juntos, aos domingos ou em longas noites de insônia.

Só não posso continuar à mercê dos seus péssimos humores, dia após dia, sabendo que você nunca irá mudar. Chega de fornecer moradia à sua pesada existência. Já abri mão de muita coisa pela sua companhia. Festas a que não fui, porque você não me deixou ir, paisagens lindas nas quais não reparei porque você exigiu de mim total atenção, companhias que perdi porque insisti em levar você comigo a todos os lugares… Ora, Tristeza, tente ao menos ser mais leve.

Sorria de vez em quando, pare um pouco de se lamentar. Ou vai continuar sendo sempre assim: ninguém querendo ficar com você. Não vou cobrar o que deixei de ganhar por sua má influência, pois sei que você, Tristeza, jamais paga suas dívidas. Mas quero de volta os meus discos de músicas agitadas e minhas roupas estampadas.

E, por favor, não tente entrar em contato comigo com as mesmas velhas razões de sempre. Não é a fria lógica dos seus argumentos que irá guiar meu coração daqui por diante. Quero ver a vida por outros olhos, que não sejam os seus. Quero beber por outros motivos, que não seja afogar você dentro de mim. Cansei do seu excesso de zelo. Vá resolver as suas carências em outro endereço. Cordialmente, seu ex amigo.

Adeus.

Paraibano, escreve nas redes sociais desde 2010 e é autor do livro “Talvez não seja tarde”. Jey encontra na escrita a sua válvula de escape e é na simplicidade das palavras que ele extravasa todo o seu sentimento.

Comments

comments

Talvez você goste de...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *