Ontem me lembrei de você

Se você me visse ficaria orgulhoso de como eu tenho levado a vida numa boa. O tempo de tormenta e dor passou e me recuperei muito bem, apesar das perdas e cicatrizes que acumulei nesse tempo. Te esquecer foi um processo lento e doloroso, mas venci. Deletei suas fotos, joguei a chuteira, que você esqueceu na varanda, no lixo e reformei o apartamento. Troquei a cor das paredes, o piso e todos os móveis. Exorcizei qualquer resquício seu no meu viver e logrei êxito na estratégia. Optei por manter a mente e o corpo em movimento e, para isso, me matriculei no pilates, no boxe, no curso de escrita criativa e no grupo de corrida do parque. Viajei pra Colômbia, pro Canadá e fiz um mochilão pela Europa. Tudo isso ajudou na metodologia que eu criei para esquecer o tempo que vivemos juntos e a dor de te ver ir embora sem uma explicação aceitável no fim daquele verão. O plano estava funcionando bem, até ontem.    

 

O problema é que tenho andado distraída ultimamente e ontem a cratera da saudade se abriu debaixo dos meus pés. Entrei em casa, fechei a porta e fiquei ali, parada com a chave nas mãos. Me lembrei das inúmeras vezes que discutimos sobre onde ela deveria ficar. Você queria que eu usasse a mesa de canto e eu preferia jogar na bolsa. Você sempre venceu essa batalha e a mesa sempre recebeu a chave. Fiquei petrificada ao lembrar esse detalhe idiota e ser capaz de assistir a patética cena de novo. A chave queimou minhas mãos e fiquei na dúvida de onde coloca-la, sem me lembrar qual era a nova ordem. Não vi o “porta-chaves” de pássaro que eu pendurei ao lado da porta. A chave acabou dentro da bolsa, a mesa não podia ganhar mais essa, afinal, ela nem existia mais.

 

Depois da chave eu rolei ladeira abaixo e as memórias foram acendendo dentro de mim feito luzes de natal. Lembrei da sua covinha, do corte de cabelo, da marca de nascença nas costas e da careta que você fazia quando o garfo raspava o prato. Recordei o dia que você se mudou pra cá e mentiu ao dizer que nunca iria embora, a vez que me levou no colo até nossa cama porque eu havia dormido no sofá e daquela tarde que brigamos por causa do cachorro e acabamos fazendo amor no chão da cozinha. Lembrei que você gosta mais de chocolate branco, que não se importa com o lado da cama e que pizza sem queijo não é pizza. Que vinho suave é suco de uva, que refrigerante é Coca-Cola e que água tônica só serve com Gin.

 

De repente eu me lembrei de tudo nos mínimos detalhes e aquilo foi como uma avalanche de dor. Fiquei soterrada na neve das lembranças e chorei. Chorei de saudade, de amor e de desespero. Desespero porque não existe estratégia para esquecer uma história que já foi escrita. Não dá para apagar os 2 anos que estivemos juntos e eu não sou capaz de arrancar você de dentro do peito. Eu tentei com todas as minhas forças, mas falhei. Você ainda vive em mim. Eu só fingia que não.

 

Não vou mais lutar contra. Vai queimar, vai arder e sei que ainda vou chorar e amaldiçoar o dia que você sorriu pra mim, mas não vou mais negar o fato de ter vivido os melhores momentos da minha vida com você. As lembranças são para sempre, mesmo que nossa história não tenha sido.

Atriz, escritora e paulistana. Acredita que o papel reflete mais do que o espelho. Apaixonada por livros, futebol, tequila, café e coca-cola. Buscando sempre o equilíbrio emocional e histórias inesquecíveis.

Comments

comments

Talvez você goste de...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *