Agora só falta você

Engoli o grito que se alojou na garganta, empurrando-o de volta para dentro. Ardeu em meu estômago, refletindo-se em lágrimas poucas, que se acumularam no canto dos meus olhos. Obriguei-as a voltar para onde vieram, numa olhada rápida para as nuvens cinza que se acumulavam aos montes, recobrindo o teto em algodão sujo. Era claustrofóbico. A sala estava densa, uma névoa de tristeza pairava úmida, gelada, grudando os fios de cabelo na face sem riso. O peso do ar emudecia meu coração. Respirei fundo. Passo a passo, caminhei em direção ao sol cor de café-da-manhã que me esperava lá fora.

A luz branca do céu muito azul deixou-me cega por alguns minutos. Sentia teu olhar nas minhas costas, tua incredulidade me seguindo o caminho e a tua tristeza como um sopro em meu ombro cansado. Aliviado. O peso do mundo, das nuvens e das lágrimas ficaram lá, dentro de tua casa, que deixei para trás. Lá, na vida que levei junto a ti. Quis olhar um último adeus. Não o fiz. Senti que a chuva que se alojava destruiria o meu projeto de felicidade, de céu de mar tranquilo. Venci o ímpeto de te ver. Seria a última vez e não mais. Guardei o adeus comigo, as lembranças das horas mais lindas que passei contigo e o amor, miúdo, em algum lugar dentro do peito.

A vida tornou-se boa. Bonita. O céu grafite me anunciava, tal qual o sol em tempos passados. Eu lhe dava boas-vindas, um bom dia caloroso, resto de transparência que me morava. As nuvens pouco me importavam, pois sempre bordava um sol à minha maneira. Amarelo, laranja, vermelho, azul, rosa. Café-com-leite. O humor variava também e os dias seguiam-se tranquilos — era tranquilidade demais. A noite então vinha, densa, ausente de lua. Estrelas, tampouco. Minha cabeça encostava-se no travesseiro e a chuva inundava minha cama. Nas pálpebras fechadas, um sorriso particular, a estrela impressa em teu rosto e a certeza que, quando mais eu fujo, mais te encontro.

 

Engenheira, blogueira, escritora e romântica incorrigível. É geminiana, exagerada e curiosa. Sonha em abraçar o mundo e se espalhar por aí. Vive com a cabeça nas nuvens. É, definitivamente uma colecionadora de amores platônicos e saudades. Nasceu e cresceu no litoral catarinense, não nega a paixão pela praia, pelo sol (e pelo frio) e frutos do mar.

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