Ela escolheu viver: uma história real sobre automutilação

Ela nunca se sentiu parte de algo ou se adaptou à vida, como outras pessoas. Ela não conseguia se encaixar e as pessoas eram cruéis, sem motivo algum. Aquelas pessoas não conheciam sua história. Ela passara por inúmeros traumas. Perdera partes de si no processo de crescimento, descobriu ser outra pessoa, uma pessoa não aceita pela sociedade ou mesmo pelos seus pais e os estranhos. E, em determinado momento, ela mesma não se aceitava.

Mas ela se mantinha firme. Levantava todos os dias e colocava um sorriso no rosto. As pessoas pensavam que ela era feliz e cheia de amigos. Aparentemente, ela tinha tudo que uma garota da sua idade poderia querer, não havia motivos para reclamar. Mas a cada sorriso, a cada levantar, quanto mais amigos ao seu redor, e nas reuniões de família abarrotada de pessoas, ela se sentia mais solitária. Cada vez mais só.

Aquela garota que sorria e tirava fotos lindas, não era ela. Passou a ficar trancada em seu quarto cada vez mais. Descontava as culpas e frustrações na comida. Chorava todas as noites na escuridão e solidão que seus dias se tornaram. Por um tempo, chorar aliviava a pressão que ela sentia em ser ela mesma.

Ela começou aparentar um cansaço sem limites. Parecia que carregava o peso do mundo em suas costas e ninguém entendia. Estourava facilmente com os colegas, pois ela não admitia que eles reclamassem de problemas tão banais, como a falta de promoção em sua loja preferida. Acabou entrando em uma bolha em que estava só. Ela e suas dores, suas lágrimas, que não aliviavam sua solidão, seus medos, sua culpa por ser quem ela era.

Certo dia, vendo um programa de tevê, ela viu o depoimento de uma garota e pensou “por que não?”. Ela já não aguentava mais carregar o peso do mundo em suas costas. Não tinha nada a perder.

Naquela noite não havia ninguém em casa. Ela se dirigiu ao banheiro, pegou o barbeador e, de alguma forma, extraiu a lâmina. Quando havia conseguido, sua mão estava ensanguentada e ela já sorria. Com aqueles cortes superficiais ela já sentira prazer. Já tinha um pouco da sua dor aliviada. Foi então que tudo realmente começou.

A cada episódio de dor, no início acontecia a noite, depois, a qualquer hora do dia, ela se trancava no quarto e se cortava. Cortou os braços, o alto das coxas, abaixo dos seios. Lugares que saberia que poderia cobrir. Enquanto se machucava, a dor psicológica ia embora. Ela se esquecia da sua sexualidade, esquecia do egoísmo dos seus pais e dos problemas da escola e sociedade. Ela se sentia viva. A dor reavivava algo dentro dela.

“Meu gatinho me arranhou”

Seus pais começaram a ver cortes em seus braços, em um dia quente, enquanto ela usava uma regata. Mas ela disse que era o seu gato e, para o seu pior pesadelo, eles acreditaram. Não ouviram seu pedido de socorro. Eram seus pais e não conseguiam perceber que algo estava errado com ela por três anos. Eles escolheram ignorar, tudo para não ter que lidar com ela. Essa foi sua derrocada. Foi até a cozinha, pegou a faca que acreditava ser a mais afiada e subiu para o seu quarto.

Mais tarde, na mesma noite, sua mãe resolveu ir até o quarto da filha e desejar uma boa noite. Coisa que ela não fazia desde que a garota era pequena. Se deparou com uma cena que desabou seu mundo. Sua filha caída na cama, com os pulsos sangrando e uma faca no chão.

Felizmente havia dado tempo de salvá-la. E no mesmo hospital em que foi atendida, ela começou receber tratamentos psiquiátricos e psicológicos. Seus pais foram alertados. Se culpariam pelo resto da vida pelo que havia acontecido. Quase haviam perdido sua garotinha.

“Eu não quero mais viver desse jeito”

Ela poderia ter se entregado. Mas sabia que, em algum lugar, havia uma fortaleza nela que precisava ser resgatada. Ela era sensível sim, muito. Mas era tão forte como o inferno e se determinou a sair dessa e ajudar outras pessoas.

Quatro anos após aquele episódio, ela estava levantando sua voz. Não que seus problemas houvessem acabado. Eles existiam e ela seria uma pessoa em recuperação para sempre, mas quando coisas ruins aconteciam e a faziam querer desistir e se machucar para aliviar a dor que a vida trás, de alguma forma, ela conseguia sair de dentro da sua mente, principalmente quando era muito ruim, ela pensava em todos aqueles que precisavam dela. Os que a amavam, os que a haviam ajudado e apoiado naquele tempo ruim.

Demi Lovato começou a se automutilar aos 11 anos e a imprensa descobriu em 2008. “Ela é inquebrável agora”

Hoje, mesmo que ela tropece e caia várias vezes ao longo do caminho, ela não desiste. Ela se levanta e ri de si mesma. Ela aprendeu que precisa lidar com seus problemas, com as pessoas, com as suas feridas e falar abertamente, falar para outras pessoas que talvez se sintam da mesma forma e que, se sentir mal, as vezes, é normal. Mas não é normal viver mal. Quando ela se viu nesse novo mundo de encarar a vida e não mais esconder seus problemas e medos, ela aprendeu a administrar seus sentimentos e conseguiu sua sanidade de volta, mesmo em ambientes insanos.

Não foi fácil, mas tudo foi uma questão de sobrevivência e ela escolheu sobreviver e VIVER!


Para que você não se sinta tão sozinha (o) com a sua história, eu deixo uma pequena entrevista da Demi Lovato falando sobre como tudo começou para ela e tudo o que ela sentia.
Assista:

PS: este texto foi baseado em história de leitoras através de e-mails (vigorfragil@gmail.com) e depoimentos no Instagram e na Fanpage.
Todas as fotos são reais.
A vocês que contaram sua histórias, meu imenso obrigada, em nome de todas as vidas que vocês podem salvar.

Grazielle.

Mineira que vive no Rio, escreve em vários blogs lindos, ama Friends e Taylor Swift e, apesar de ser advogada, se encontra mesmo é na escrita. Ama café, pôr do sol no inverno, gatos e odeia pagar boletos. Dona e proprietária do Vigor Frágil

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