Não pergunte como eu estou

Entre um episódio e outro de uma série qualquer do Netflix o celular vibrou, eram 2 horas da manhã e estranhei a notificação. Quando peguei o celular na mão, paralisei. Era você. Depois de tanto tempo e nenhum sinal de vida você resolveu aparecer com uma pergunta: “Como você está?”. Minhas mãos tremiam, segurei a respiração e cravei os olhos naquelas 3 pequenas palavras. Elas me inquietavam, mas era o ponto de interrogação ao final da frase que, realmente, me perturbou. Passei alguns minutos olhando para a tela do celular e me perguntando qual era o sentido do seu questionamento.

Você foi embora aos poucos e quando viu que não tinha mais como estender sua permanência num relacionamento que você dizia ser inoportuno, saiu sem olhar para trás, bateu a porta com força e desapareceu da minha vida. Foi como um tsunami que chega sem avisar e destrói tudo num piscar de olhos. Foi isso que sua ausência prolongada causou no meu viver. Você devastou todo e qualquer resquício de carinho e afeição. Me deixou ali sozinha sem nem mesmo se importar com o estrago que deixou.

Eu recolhi os destroços e, entre lágrimas, reconstruí tudo lentamente. Me readaptei ao novo ambiente, descartei retalhos seus que ainda habitavam minha vida e fui lutando para me sentir alguém de novo. Você? Não sei. Sumiu subitamente e não deixou rastro ou espaço para que eu pudesse segui-lo. Dissipou-se no ar como brisa e só deixou o mormaço que, oculto, queima mais que o sol. Ardeu, mas eu sobrevivi.  

Como eu estou? Essa era uma pergunta que você devia ter feito quando ainda vivíamos juntos. Quando nosso relacionamento foi escorrendo ralo abaixo e nossa conexão se perdeu. Essa era a preocupação que você devia ter tido quando saiu de casa e rasgou minha vida em dois. Esse era o questionamento que devia ter feito quando esqueceu nossos sonhos e planos e nem olhou para trás.

Não adianta vir agora perguntar como eu estou. Não fará mais diferença dizer que eu estive muito mal, que eu chorei por semanas sem fim, que eu queimei suas fotos e troquei todos os móveis da nossa casa. Não vai mudar nada lhe contar que estive doente de amor, que desacreditei de mim mesma e me senti sozinha no mundo. Como eu estou? Agora? Não lhe interessa mais, não é da sua conta e eu não lhe devo mais explicação nenhuma.

Você pode voltar no tempo e mudar tudo que me fez sangrar? Não! Então, não pergunte como eu estou, porque eu, realmente, acho que você não se importa, nunca se importou.

Atriz, escritora e paulistana. Acredita que o papel reflete mais do que o espelho. Apaixonada por livros, futebol, tequila, café e coca-cola. Buscando sempre o equilíbrio emocional e histórias inesquecíveis.

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