era inverno quando você foi embora

O solstício de inverno havia surgido há alguns dias, o clima estava mais seco e uma nevoa
gelada pairava no ar. A combinação “perfeita” para uma despedida não programada. O
inverno havia se instalado naquela mesma semana, a semana que você decidiu que não queria
mais ficar. Eu acenei com a cabeça que havia entendido o motivo, e talvez ali na hora, tivesse
entendido mesmo, mas conforme o inverno foi se aprofundando, meu coração esfriou com a
mesma rapidez, e, de repente, me vi gelada por completo.
Você foi embora e me deixou num inverno seco e sem vida, me deixou parada olhando o
tempo, me perguntando o que havia acontecido, me questionando onde poderia ter feito
diferente, se é que eu poderia.
Todas as flores das longas primaveras que vivemos juntos se tornaram pó, as tardes de verão a
beira-mar, viraram memórias borradas de algo tão distante que parecia ter acontecido em
outra vida.
Você foi embora e me deixou no frio, sem coberta ou meias, e olha que eu vivia te dizendo que
morria de frio nos pés, lembra?
Eu precisei sobreviver durante algum tempo com as memórias de estações alegres e cheias de
vida. Com os cenários vivos e aquecidos, me protegi do frio com algum vestígio de um amor
que para mim, tinha sido lindo.
Congelei meus sentimentos e espantei qualquer pessoa que quisesse se aproximar. Tudo virou
neve branca, chuva fria e dor intensa. Nada tinha cor, colorido, vida ou sequer a chance de
brotar outro amor. Tudo ficou cinza naquele rigoroso inverno.
Mas os dias passam, o calendário vai perdendo algumas folhas e antes que a gente perceba,
uma nova estação vai despontando no horizonte, chega de cinza, acabou o frio nos pés e no
coração, é primavera amor, é hora de reflorescer.
Os meses passaram e as marcas de um intenso inverno continuam aqui. Mas hoje cedo, posso
jurar que o dia amanheceu antes, que um sol tímido entrou pela janela do quarto, acredito ter
ouvido barulho de pássaros e pode ser impressão minha, mas percebi que árvore da rua do
meu trabalho estava mais colorida. O inverno foi necessário, o tempo de reclusa, o
acolhimento e congelamento interno. Precisei passar pelos longos meses de término e aceitar
o fato: Você apenas não queria mais continuar aqui.
Está tudo bem, o inverno serve exatamente para isso, para nos recolhermos e aprendermos o
que quer que o universo queira ensinar.
Mas agora é primavera, não há mais espaço para dias cinzas e choro, não cabe mais dor, agora
eu preciso florescer de novo. Então me deixe passar com minhas marcas e cicatrizes, me dê
licença, preciso tirar o pouquinho de neve que ficou na porta de casa, guardar os casacos e
luvas, separar o vestido florido no armário. Eu preciso guardar o que não tem mais uso,
encaixotar e guardar com carinho o que não usarei nessa linda primavera, abrir espaço no meu
peito para o novo.
Era inverno quando você foi embora. Mas agora é primavera meu bem, é tempo de recomeço.

21 anos, garota do interior, puxa bem de leve o ‘R’ na hora de falar. Viciada em café recém passado, seriemaníaca de carteirinha, apaixonada pelo céu, pelo Sol, por cachorros e pelo Dan, é claro. E escreve também no “O mundo da Lari”.

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