Talvez você precise se encontrar

São quase cinco horas da manhã e me encontro jogada no sofá pensando em você. A taça de vinho está pela metade e o décimo episódio de Grey’s anatomy está pausado. Eu tô usando aquela sua camiseta velha, sabe? A vermelha de flanela. Ela ainda tem o seu cheiro e sua forma, quando cai no meu corpo, sinto-me abraçada pelo seu aroma.

 Eu solto uma gargalhada rouca, recheada de vontade e lembro do dia em que te vi sair pela porta pela última vez. Havíamos brigado por uma coisa tão bobinha que hoje em dia, me dá até vontade de rir. Você estava com os cabelos desgranhados e um chinelo sem cor. Você não sabia que estava se preparando pra partir da minha vida naquele dia. Eu também não sabia. Eu só te observei, encostada na parede com o meu vestido surrado preto. Era uma noite como outra qualquer, não era? Não foi. 

 Aliás, você foi.

 Foi embora. 

Naquele momento, eu nem tive muito tempo pra chorar. Eu liguei pras minhas amigas e xinguei você. Sabe todas as coisas que eu costumava amar no início do relacionamento? Então, foram as coisas das quais eu mais reclamei. Disse que te queria bem longe de mimque você ir era um favor pro meu futuro e que a partir daquele instante, eu iria crescer e amadurecer muito mais do que fiz com você.

Eu prometi que iria me curtir, me conhecer, viajar em mim e quem sabe, conhecer um outro alguém no meio do caminho. Gritei bem alto o quanto eu não precisava de você.

Mas quer saber? Eu tava certa.

Eu sobrevivi, rapaz. Nos primeiros dias, seu corpo fez falta embaixo do cobertor, mas depois de um tempo, aprendi a me esquentar sozinha. Eu mudei mesmo o corte de cabelo, fui atrás dos meus sonhos, trabalhei muito e curti muito também. Conheci gente nova, aprendi outro idioma, parei de fuxicar suas redes sociais e comecei a me entender. 

Eu sei viver muito bem sem você, eu só descobri que não é o que eu quero. 

Pois é, que ironia.

Eu precisei de um bom tempo sem você pra entender que não precisamos ser compatíveis, que podemos brigar e xingar. É só não fechar a porta e ir embora. É voltar, é conversar, é ir pra cama tendo feito as pazes. Eu descobri que não preciso odiar suas manias, e que você não precisa odiar as minhas. A gente só precisa se lembrar o motivo de nos amarmos.

Eu cresci SIM muito sem você. Eu vivi experiências inesquecíveis e não abriria mão de nenhuma delas pra estar contigo naquele momento. Mas é que foi necessário crescer, me entende? Eu precisava conhecer a vida pra conhecer você novamente. 

Nesse abismo no qual nos separamos, você também mudou muito. Viramos pessoas diferentes, porém igualmente interessantes. Descobrimos da maneira mais bobinha, igual a nossa briga, que é preciso se encontrar para que possamos encontrar o outro. 

É.. a vida é bem louca, mas eu também sou. Sou inteiramente louca por você.

Respiro fundo e observo a televisão pausada. Meus pensamentos estão em ti. Você aparece enrolado numa toalha no corredor e diz “Pode dar play, amor” e eu esbanjo outro sorriso. É, foi bom termos nos encontrado depois que nos encontramos.

20 anos de muita história para contar, autora do blog DuzentasLinhas, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas – nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males. Você pode encontrar meus textos nos blogs mais lindinhos da internet
e-mail aberto para corações: duzentaslinhas@gmail.com

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