Minha vez de dizer adeus

Sempre gostei de mudanças. Do curto ao longo, do loiro ao preto, mudei o cabelo. Comecei com brilho, depois gloss, matte e por fim, vermelho real compôs meu batom. Mudei os status das redes sociais, mudei o estilo das roupas, mudei a maneira de falar.

Desde cedo compreendi o mundo como um constante vai-e-vem, onde nada permanece inerte. A lua muda de fases, não é mesmo? Sendo assim, porque não eu mudar?

E repetindo o movimento ditado pela natureza, transformei-me em uma mulher de fases. Um dia cheia; cheia de histórias, de brilho, de palavras e risadas. No outro, nova, escura, sombria, porém renovada.

Sempre gostei de mudanças… Até você se transformar em uma.

Você, a única coisa que eu quis que permanecesse para sempre. Você que diferente de meu variável humor parecia ser sempre a fórmula exata para resolver todas as equações que ecoavam dentro de mim. Você que nunca foi garoa, tempestade e muito menos maremoto. Você sempre foi o mar onde eu navegava sem medo de me afogar.

Você, que ao contrário do meu cabelo que um dia está preso num rabo alto mostrado o contorno de meu rosto, e no outro é apenas cabelo voando com a brisa que vem do ventilador, foi sempre a estática da minha vida, com suas palavras fortes e seu sorriso leve.

Logo você, a única certeza dentro de mim, decidiu que era hora de mudar também. Mas diferente de minhas mudanças externas, as suas vieram de dentro para fora, e bem, eu não soube lidar com isso. Tão rápido quanto a mão do escritor digita um texto, você deixou de ser âncora para se transformar no vento que assusta o marinheiro. Sem que eu pudesse prever ou perceber suas palavras reconfortantes e exatas se transformaram em comentários sarcásticos e risadas desesperadas de quem perdeu as rédeas da situação.

E como num clique onde a cena se transforma em fotografia, você deixou de se movimentar e optou por permanecer em repouso absoluto, sem conversas, sem perguntas, sem respostas, sem mim.

Aos poucos, mesmo sem querer me dar conta da realidade, abri os olhos bem devagar, como quando estamos em uma sala escura e alguém acende as luzes sem avisar e a claridade incomoda nossos olhos. Bem, a clareza da mensagem que a sua falta de diálogo me trazia com certeza incomodou. E quando abri os olhos pude ver, ou melhor, enxergar, o quanto minha insistência em permanecer ali era capaz de me fazer parar de mudar.

Eu não mudava mais de música; só ouvia aquela que você me enviou um dia qualquer. Não mudava mais de roupa; preferia estar confortável e apagada, sem minhas cores excêntricas. Não mudava mais de humor; estava sempre irritada e triste, pensando sobre os possíveis porquês da sua mudança. Não mudava mais de assunto; agora, tudo se resumia a você.

Bem devagar, aprendendo a andar na corda-bamba do amor próprio, decidi lhe dizer adeus. Não, não pessoalmente; na verdade, não havia porque fazer isso frente a frente. Você não respondia minhas mensagens há um bom tempo, então, o seu adeus já fora dito, eu é que não quis aceitar.

E foi difícil! (pode acreditar que foi!). Cada gota de chuva me fazia lembrar de quando eu mergulhava nos seus dias à procura de mais. Cada música escolhida aleatoriamente por meu celular parecia ter um lembrete sobre o que um dia foi vivido. Cada novo sorriso teu trazia junto um tapa em minha autoestima. E sim, eu chorei, solucei, dormi abraçando o travesseiro e também varei a noite sem dormir pensando no que poderia ter acontecido se você ainda estivesse ali. Mas você não estava, você não pertencia mais àquele lugar.

Até que um dia não chorei mais. Não roí mais as unhas, não comi mais chocolate, não ouvi mais músicas tristes, não deixei de passar meu batom. Caí menina, e levantei mulher. Mais forte, mais crescida, mais experiente, mais eu mesma.

Quanto a você, bem, obrigada. Obrigada por sair do meu caminho da melhor maneira que pôde. Cada lágrima derramada transformou-se em crescimento interior, e isso não há dinheiro que pague. Cada momento deixado de viver me mostrou que a vida não pode ser desperdiçada. Então, obrigada. Você foi a melhor coisa que eu nunca tive, afinal, se em algum momento você tivesse sido meu, ainda estria junto a mim.

Você me mostrou que eu posso ser muito mais que mudança; eu posso ser continuidade. Então, mais uma vez, muito obrigada.

 

Ela é a menina que grita em silêncio, e desenha em palavras o uni-verso. A Deus tudo atribui e, dele, tudo recebe. Sempre flutuando em outros mundos, mas com os pés fixos neste aqui. Como canta Ana Carolina: “é que eu sou feita pro amor da cabeça aos pés, e não faço outra coisa se não me doar”.

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