Carta aberta aos reis de lugar nenhum

Leia ouvindo Lake Michigan – Rogue Wave

Ontem, de madrugada, enquanto inocentemente meus dedos corriam pela tela do celular, tive uma das maiores percepções da minha vida: a de que eu não estou mais disposta a aceitar migalhas. Sei que essa é uma conclusão que deveria ser óbvia, mas, na prática, todos nós sabemos que não é bem assim.

Muitas vezes, por gostarmos de alguém, ou por sabermos que determinada pessoa deveria ser importante em nossa vida, ou para que a gente consiga honrar o papel dela perante nós, aceitamos ser o resto. Mas para mim, depois dessa madrugada, isso se tornou praticamente intolerável em minha vida.

Eu simplesmente não quero mais. Não quero mais ter que me diminuir para caber na percepção limitada de pessoas que sequer sabem da minha vida, dos meus sonhos e das minhas lutas. Pessoas que se fecham em castelos e decidem que todo o restante do mundo deve agir como súdito de sua incapacidade de amar.

Por anos da minha vida me culpei por não conseguir conviver com esses reis. Chorei, roí minhas unhas, desenvolvi ansiedade, acreditei que não saberia nunca amar de verdade, me penalizei por não dar o meu melhor. Mas, depois dessa madrugada, essa culpa desapareceu. De vez.

Aprendemos em tantos livros que primeiro deveríamos nos amar para depois amar o próximo. E cá estava eu, destruindo o pouco que me restava, juntando os cacos que ainda davam para colar, na doce e venenosa ilusão de que assim, e só assim, seria aceita e amada pelo que sou.

Reis e rainhas de castelos de areia, um aviso importante: o reinado acabou. Hoje acordei diferente. Hoje acordei disposta a estar perto de pessoas que me trazem luz. Hoje decidi honrar a minha existência e deixar que cada um decline seu reinado da forma que mais lhe agradar. Hoje não quero receber mensagens de pessoas que só sabem falar de si e de seus feitos ou de pessoas que penalizam minha ausência, como se elas tivessem o menor dos direitos de querer algo de mim. Hoje NÃO. E amanhã também NÃO.

Não estou nesse mundo para engolir migalhas. Guardem elas para si. Vai lhes faltar, tenho certeza que vai. Estou bem com o pedaço de pão que tenho, que foi conquistado por mim. Esse pedaço de pão me mostra a mulher forte que precisei ser, me mostra meus talentos, meus lados obscuros (e necessários). Eu não preciso de complementos.

Depois dessa madrugada eu mudei. E os reis e rainhas que me desculpem, mas não nasci para ser coadjuvante de filmes baratos ou para animar festas do ego alheio. Hoje eu acordei sabendo exatamente o papel que devo ocupar no palco da vida: sou protagonista de mim.

Legenda da foto: Fotógrafo Gabriel Ornellas

RAQUEL DE PÓVOAS

Facebook: Quel Póvoas 

 

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