Hoje eu tropecei em você e sangrei

Hoje eu esbarrei com você. Onde eu não esperava, num momento inapropriado e acompanhado de quem eu nem conhecia. Aquelas pessoas não me diziam nada, pior, seu rosto não me dizia nada. Era como se aquele ali, segurando o copo de cerveja e falando alto não fosse o mesmo homem que segurava minha cintura e sussurrava no meu ouvido. Como se aquele que esconde a mão no bolso da calça e desvia o olhar não fosse o mesmo de deixava os dedos se perderem nos meus cabelos e conectava a imensidão dos olhos azuis em mim. Como se aquele que, agora, move as pernas impacientes e estufa o peito não fosse o mesmo que corria para me ver e me abrigava de peito aberto. Em quem você se transformou?

Essa estranheza toda me angustiou e uma saudade, nada gostosa de sentir, trucidou as ambições da noite, que tinha tudo para ser gloriosa. Suas expressões todas estavam tão entranhadas nas minhas lembranças mais admiráveis que olhar para você e descobrir um novo e inédito semblante foi aterrorizante. Atestar que você já não era mais o mesmo que me acolhia da desordem, que me embrulhava em braços e pernas, que me desafogava do suplício e me resgatava do naufrágio, me deixou ali, parada e sem ar. Me perdi de novo.

Hoje uma faca afiada rasgou meu peito. Os pontos que ainda buscavam unir a pele foram esfrangalhados e minha carne ficou ali, exposta e desnuda. Toda a minha bravura desmanchou, fiquei desprotegida e sangrei. O ar faltou aos pulmões, as mãos se uniram, as pernas vacilaram e os olhos umedeceram. As lágrimas que já foram de amor eram todas desilusão. Como enfrentar lâminas tão afiadas se você não dispõe mais de qualquer escudo?

Você foi meu, mas, hoje, é mais um estranho que bebe num bar qualquer e perde o olhar em meio ao caos da metrópole. Você deixou de ser meu, deixou de ser inspiração, deixou de ser lembrança. É só um forasteiro que carrega um remoto vislumbre do que um dia foi amor. “Como você está diferente”, é… Você também sentiu. Nos perdemos, nos tornamos estranhos.

Hoje eu tropecei em você e sangrei. Não foram os joelhos ralados ou a ardência nas mãos. Foi o coração, ele sangrou quando colidi com o chão frio dos seus olhos azuis. Eles não iluminam mais o caminho, se tornaram um gélido abismo.

Atriz, escritora e paulistana. Acredita que o papel reflete mais do que o espelho. Apaixonada por livros, futebol, tequila, café e coca-cola. Buscando sempre o equilíbrio emocional e histórias inesquecíveis.

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