Não se pode ter tudo na vida

Dizem por aí que quem nasceu para ser bela recatada e do lar nunca será uma deusa, uma louca, uma feiticeira. Sou contra rótulos e essa obrigatoriedade em escolher um lado. Mas sinto cada vez mais que o mundo nos obriga a tomar partido das coisas.

Certa vez fiquei sabendo de um boato sobre mim no trabalho. Ao que parece fui promovida por ter um relacionamento íntimo com o chefe. E, pior, a fofoca tomou proporções enormes porque parece óbvio que uma mulher na minha idade, cargo e salário só pode estar em uma posição de destaque por suas características físicas e estéticas.

E como reagir a isso? Luto por igualdade, mas também sou romântica e gosto de homens que abrem a porta do carro, trazem flores e fazem serenata. Sou até brega, conservadora, gosto de sutiã. Ao mesmo tempo, quero trabalhar, ter independência financeira e tomar decisões sobre o meu corpo e sobre o meu futuro.

Mas, na injustiça desse mundo, concluo que não se pode ter tudo nessa vida. Nasci mulher e qualquer promoção no trabalho será duvidosa do ponto de vista dos colegas machistas. O problema é que essas pessoas não se veem como tal, pois esquecem que a violência contra a mulher não está apenas na agressão física. Existem outras formas de fragilizá-la, como por exemplo: fazer as pessoas em volta acharem que ela é louca, interromper a fala dela o tempo todo, levar o crédito em seu lugar ou explicar o óbvio como se ela fosse incapaz de entender. Embora tais situações possam passar despercebidas pelos olhares mais ingênuos, presencio agressões como essas rotineiramente.

Já não basta andar pelo escritório vendo os olhares esticados e os pescoços retorcidos dos homens a minha volta? Não quero ter que provar a todo momento que o meu cargo e salário estão de acordo com a minha performance. Afinal, nunca vi essa dúvida pairar sobre os meus colegas homens que são promovidos.

Sou mulher. E por que não posso ter tudo? Quero poder ouvir sertanejo e MPB. Acreditar em Deus e ser de esquerda. Ser uma bela deusa. Uma louca recatada. Uma feiticeira do lar.

Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.
-Paulo Leminski.

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