Depois de você o mundo ainda é mundo

O relógio despertou as 7:00 em ponto, ativei o modo soneca por mais dez minutos, eu precisava daqueles minutos. O segundo toque trouxe com ele a realidade, era quinta-feira, faltava menos de uma hora para eu estar no trabalho, o dia estava frio e pesado e o que havia acontecido antes disso já não importava mais. Levantei, passei o café de sempre, joguei metade da garrafa fora, pois estava acostumada a preparar uma quantidade de café para dois, porém não havia mais duas pessoas, só havia eu. Bebi o café morno a caminho do trabalho, envolvi um cachecol azul no pescoço, sempre tive a sensação de que cachecóis nos protegem do mundo, como se fosse um escudo. Me peguei imaginando te contando a minha teoria dos cachecóis, imaginei você rindo dela e de algum jeito teria tornado a minha teoria maravilhosa em algo pequeno e bobo.
Dei a volta no quarteirão, a banca de jornal estava com a porta meio aberto, o moço que vende cachorro quente já estava a postos para mais um dia, a senhora que passeia com seu cãozinho briguento no parque todas as terças e quintas já estava provavelmente na terceira volta, eu estava atrasada, por isso sabia. A lanchonete aonde costumava almoçar nas quartas-feiras com a minha amiga Luísa, estava aberta, porém ontem eu não almocei lá, nem nos últimos três meses e isso me fez pensar que deveria chamar a Luísa para almoçar na próxima quarta, caso ela ainda queira. Os jornais foram impressos, o café estava sendo servido, as crianças estavam a caminho da escola com suas lancheiras e sorrisos banguelas. A vida havia continuado.
Eu acreditava que se um você decidisse ir embora o mundo sairia da orbita, giraria em outra direção, eu imaginava que tudo mudaria de lugar e eu jamais iria conseguir encontrar o caminho para qualquer direção. Mas não, está tudo em seu devido lugar, as pessoas continuam seguindo seus afazeres, e apesar de estar a oito minutos atrasada, eu também segui meu afazer do dia.
O meu mundo não parou, parecia que isso iria acontecer sabe? Mas quando abri os olhos de manhã, após levar um soco no estômago por toda aquela ansiedade e medo do que viria a seguir, eu percebi que a minha vida não girava em torno de você, nem de ninguém e que nunca vai girar. Que eu posso continuar fazendo isso sozinha mesmo, que eu posso aprender de novo a fazer uma quantidade menor de café, almoçar nas quartas com minha amiga, acordar mais cedo e ir dar uma volta no parque e tentar conhecer melhor a senhora e o cão rabugento, comer um hot dog a caminho do trabalho, me sentir aquecida com meu cachecol, eu percebi que posso continuar vivendo sem você.
O despertador vai tocar amanhã novamente, pretendo ir com o cachecol rosa claro com flores, ele me dá um ar parisiense, vou comprar  jornal caso a banca esteja aberta, vou usar sapatos mais confortáveis, sorrir para a moça que sempre cruza o meu caminho e parece estar com o coração partido assim como eu, vou continuar vivendo e aprendendo a viver sem você.
A vida continua, as pessoas ainda estão por aqui, a Terra não saiu do lugar, o mundo não parou girar, não mudei de planeta e nem sequer de apartamento.
Depois de você o mundo continua o mesmo. Ainda bem. 
21 anos, garota do interior, puxa bem de leve o ‘R’ na hora de falar. Viciada em café recém passado, seriemaníaca de carteirinha, apaixonada pelo céu, pelo Sol, por cachorros e pelo Dan, é claro. E escreve também no “O mundo da Lari”.

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