O que ficou depois do fim

Bastou um único olhar para eu realmente encontrar você em mim. Assim que te olhei, tudo fez sentido, as peças se encaixaram e os dias nasceram todos com cor. Você passou a viver em mim e a sua imagem seduziu meu viver.

Te vi beber naquele bar, correr no parque recém-inaugurado, rir com o velho amigo e chorar o fim do filme no cinema. Te vi adormecer no carro, comer hambúrguer com batata frita, tomar café preto sem açúcar e molhar os pés no mar. Te vi apontar para as estrelas, cavar a terra com as unhas, saltar de paraquedas e folhear revistas de moda. Te vi acordar descabelado, trabalhar de camisa amassada, lavar o cabelo com sabão neutro e esconder as olheiras com óculos de sol.

Te vi escrever poemas de amor, assistir desenho animado, lamber o prato de sopa e cortar as unhas. Te vi chorar a morte do cachorro, sorrir para o Papai Noel do shopping, ligar para o melhor amigo de madrugada e virar a noite assistindo série. Te vi roncar depois de doses excessivas de whisky, jogar bola de chuteira furada, cozinhar risoto e tomar Toddynho de manhã. Te vi virar tequila na balada, planejar casa nova e filhos, dispensar as ex-namoradas e dormir de terno no sofá depois de horas de trabalho.

Te vi lacrimejar com as alianças na mão, com a entrada na igreja, com a lua de mel no Caribe e com o teste de gravidez. Te vi trocar fraldas, soprar bolhas de sabão, ajudar com o dever de casa e cobrar as notas do boletim. Te vi rolar na areia, jogar água para cima, fazer curativo no joelho e ensinar os truques do Skate. Te vi vibrar com a final do campeonato, organizar eventos de família, presentear a todos com a viagem pra Disney e tremer de medo no avião. Te vi tirar foto com o Mickey, com o Pateta, com o Pluto e com o Pato Donald.

Te vi comprar rosas nas bodas de ouro, sentir dores nas costas, tomar remédios para o coração e soluçar na formatura do filho. Te vi gargalhar com piada de papagaio, comer frango sem talher, unir as mãos em oração e sorrir com o bolo de setentão. Te vi carregar a primeira neta, contar histórias da juventude, percorrer os álbuns de fotografia e deixar uma lágrima correr. Te vi reclamar do tempo frio, do tempo quente, do tempo úmido e de qualquer tempo. Te vi sorrir com a vitória no dominó, com a boina nova, com o novo título do time de futebol e com a bengala de madeira maciça. Te vi sentir medo do relógio, do calendário, dos anos passarem e das rugas que chegaram. 

Hoje te vi partir e a maior série de todos os tempos acabou. Como sua esposa, vi cada cena com o coração e todos os frames ficaram marcados na minha retina. Não preciso rebobinar a fita ou apertar o play, basta fechar os olhos e sentir. Os episódios reprisam em silêncio. Você sempre foi meu final feliz.

Atriz, escritora e paulistana. Acredita que o papel reflete mais do que o espelho. Apaixonada por livros, futebol, tequila, café e coca-cola. Buscando sempre o equilíbrio emocional e histórias inesquecíveis.

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