Já são 15 pras quatro da tarde, e eu estou aqui na varanda com um restinho de café ainda quente olhando a rua. O sol que bate em minha pele parece à chama acesa de um fogão, mas eu nem ligo. Na verdade já não ligo pra mais nada.

Eu não estou bem, sabia? Isso mesmo, eu não estou bem. Custou e custa afirmar isso a mim mesma, porque bem, esse tempo todo eu me mantive firme, intacta, feito titânio. Gosto dessa comparação; eu e o titânio. Você já viu uma fibra dessas que reveste os carros de luxo? Elas são finas e flexíveis, porém extremamente fortes, capazes de possibilitar ao material envolto uma resistência muito maior. Isso me faz lembrar eu mesma. Pequena, porém resistente, tendo o batom por arma e o sorriso por tiro.

Não sei dizer o quanto já bebi desde que você se foi. Naquela última tarde de novembro em que você decidiu me dizer adeus eu me senti um esmalte vermelho: forte, intenso, berrante, ruim de tirar, capaz de vibrar mesmo descascando, mas não o suficiente para permanecer intacto para sempre. Tudo tem um fim, não é mesmo? Até a chuva de verão que começa meio-dia de terça e se estica até o fim de semana termina na segunda de manhã.

Mas eu não desmoronei (apesar dos abalos). Estive firme, inteira, e me permiti emprestar a frase de Pitty pra cantar que mesmo que nada funcione eu estarei de pé, de queixo erguido. E estive mesmo, e ainda estou. Afoguei as dores das últimas palavras em doses de qualquer coisa que fosse. Até água eu bebi pra espantar os pensamentos e a vontade de deixar tudo ali mesmo e ir embora, chorar sossegada. E quando precisei chorar deixei as lágrimas se misturarem à água do chuveiro pra não saber diferenciar qual gota era de quê. Sofri sim, mas ninguém soube. Uma grande mulher comemora sucessos e aprende com fracassos.

Mas eu estou com saudade. Sim, eu estou. Não devia, não queria, não podia, mas estou. Saudades de rir juntos na calçada de casa lembrando que o Luquinha nosso afilhado sem querer deu com a cara na porta de vidro que demos à sua mãe natal passado. Saudades de cobrar resposta às 3 da tarde sendo que a gente marcou pra responder às 6. Na verdade eu só queria chamar sua atenção; queria atrapalhar seu serviço um pouquinho, só o suficiente pra você perceber que mesmo imersa em trabalho eu pensei em você.

Meu café esfriou; não dá mais para beber. Café frio – já dizia minha mãe – não serve nem para o cheiro (literalmente). E o amor também é assim; depois de frio, nem o cheiro agrada. É só sentir o perfume que o tal do ranço já vem se instalar e a gente começa a pensar “Deus me livre, de onde vem isso?”, enquanto olha para os lados com medo de encontrar o rosto tão familiar.

É pensando sobre isso que percebo que ao menos de minha parte, não esfriou. Muito pelo contrário do que foi dito, é só sentir teu perfume que meus olhos se fecham e meu pensamento se projeta para qualquer outro lugar que não seja onde estou naquele instante.

Não vou dizer que você esfriou, seria muito precipitado. É claro que o rompimento de uma relação traz dúvidas e questionamentos, mas a verdade é que nós dois tentamos, e nem um nem outro deu conta de prosseguir da maneira certa.

Então fica assim: em outro momento a gente se encontra e tenta de novo. “Nóis se vê por aí”; no mercadinho da esquina de casa, ou num shopping, comprando tênis. Num cruzamento de semáforos enquanto os carros estiverem parados, ou enquanto atravessamos ruas opostas. A gente se vê, pode apostar que sim.

E se o destino assim o permitir te convido pra um café no ponto mais alto da cidade. E se o amor o permitir, convido pra ficar mais um pouquinho e tomar café todos os dias. E se a vida não interferir, convido pra ir comprar pó de café comigo quando o da nossa casa acabar.

Vamos viver, que um dia a gente se encontra, se esbarra, se topa, se… Um dia. Hoje não, porque hoje o café já acabou, e as palavras foram bebidas junto com ele. Mas um dia quando nossas confusões se tornarem um pouco menos confusas, a gente se vê, e decide se vai ser a última vez ou a última primeira vez.

Ela é a menina que grita em silêncio, e desenha em palavras o uni-verso. A Deus tudo atribui e, dele, tudo recebe. Sempre flutuando em outros mundos, mas com os pés fixos neste aqui. Como canta Ana Carolina: “é que eu sou feita pro amor da cabeça aos pés, e não faço outra coisa se não me doar”.
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