Apaixonar-se é bom mas esquecer é libertador.

Lembro-me como se fosse hoje, você chegando na porta de casa em uma noite em que eu não te esperava. Apareceu como uma daquelas visitas normais, como quem não quer nada, me olhou com os olhos brilhantes e ao mesmo tempo se mantendo distante; o corpo trêmulo, um sorriso pela metade forçando pra se tornar inteiro.

Naquela noite você mudou tanta coisa dentro de mim, entrou pela porta com a chave do carro na mão e saiu de casa com meu coração. Lembro perfeitamente de cada detalhe. Naquela noite, que você contou que me amava, que me roubou o primeiro beijo da forma mais inusitada; naquela noite onde tudo começava.

Você não sabe, mas me apaixonei desde a primeira risada que você me tirou. Você não faz ideia do quanto eu ficava inexplicavelmente feliz de ouvir tua voz falando qualquer coisa boba, mesmo que de longe, era o som mais gostoso que eu já tinha ouvido na vida; era uma canção de ninar misturada com todos os instrumentos de uma orquestra sinfônica com o poder de fazer meu corpo arrepiar.

Te amar foi a maior loucura que eu cometi na vida, sem sombra de dúvidas. Te amei com cada pedacinho do meu corpo, eu sentia você em cada detalhe meu, como se fosse parte de mim, talvez esse tenha sido meu erro, porque eu já nem conseguia me imaginar mais sem você.

Mas o final todo mundo sabe, eu fiquei sem você. Me encontrei em uma das piores fases da minha vida, não conseguia achar nenhuma saída, não queria enfrentar todos os dias sabendo que não era você que ia começar minhas manhãs me dando bom dia, que eu não ia mais chegar no fim da noite com aquele ritual de sempre, onde eu olhava teu nome nas minhas notificações, lia as mensagens, depois fechava os olhos e sorria.

Eu me entreguei pra você de corpo e alma, aquela coisa bem clichê. Me entreguei sem freio nenhum, sem breque, sem cronômetro, sem noção nenhuma de espaço ou tempo, apenas fui tua, te amei como se fosse uma força da natureza, um instinto sem explicação.

Mas eu também sei que tentei de todas as maneiras tudo o que eu podia fazer pra te manter por perto, mesmo que você ainda não entenda. Só eu sei o quanto chorei, esperneei, gritei e também silenciei. Eu sofri a dor de quem ama como nunca imaginei. Substitui o som da tua risada pelo barulho ensurdecedor da tua saudade. Eu me despedacei cada dia um pouco mais daquilo que fui e me transformei com você.

Depois de tanta insistência, depois de tantas noites em claro, de tantos dias visitando nossas lembranças e segurando o celular contra o meu peito pra ver se você sentia o quanto eu queria que você fizesse ele tocar, eu percebi então que nada mais ia fazer você voltar.

Comecei a aceitar cada dia um pouco mais, que tua falta me acompanhava, mas a vida seguia, e parece que cada vez mais difícil, mais impiedosa do que nunca, e eu não podia parar. Criei forças pra seguir em frente, deixei você no modo ausente, fui varrendo as lembranças pra fora, e as que o vento espalhava eu empurrava pra baixo do tapete, e lá deixava.

E assim foi acontecendo, fui me recompondo, me reerguendo e revivendo. Comecei a me reencontrar com quem eu era antes de você, fui começando a amar quem eu era quando você me encontrou, e você do outro lado foi desaparecendo como um filme Polaroid apagado pelo tempo.

Te amei como se não houvesse amanhã, mas sempre há, ou quase sempre. E no final, te esqueci gradativamente, talvez não tão rápido ou com a mesma intensidade em que me apaixonei, mas com um sentimento de liberdade inigualável, tão bom como o de ter te amado desesperadamente.

Advogada com alma de bailarina; uma sonhadora inconstante, meio cômica e distraída. Se perde em meio a tantos pensamentos esparsos, por isso tenta traduzir em palavras toda bagunça do seu coração incansável; na esperança de guiar e entender a loucura cotidiana de seus passos. Dona da página e do insta @escritascomcafe.

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