Encontrei uma carta tua no meio da minha bagunça.

Era uma noite de quarta-feira. Criei forças e decidi finalmente fazer uma pequena faxina e dar uma organizada nas gavetas do meu quarto.

Até que então, no meio daquele monte de velharia, chaveiros, brincos, caixas e coisas que eu nem sabia que tinha mais, encontro uma carta tua dentro de um envelope vermelho.

Já fazia um tempo que você não visitava meus pensamentos e nem meus sonhos, por isso a surpresa foi grande.

Abri o envelope, já sentindo um calafrio, daqueles que só você me proporciona, e me sentei na cama pra ler. Era mais ou menos assim:

“Amor! Eu te amo tanto, que nem um livro com mil páginas seria suficiente pra escrever sobre  que eu sinto. Todo dia eu acordo mais apaixonado por você. Toda vez que eu te vejo sinto o mesmo frio na barriga de quando eu sentia no começo de tudo. Você é uma das melhores pessoas que eu conheço…”

Eu podia ouvir exatamente o tom da sua voz dizendo cada palavra. Parece que eu podia sentir teu coração batendo dentro do meu peito no ritmo de quando você escreveu, podia sentir seu amor em cada traço e curva de cada letra. Senti até teu perfume no momento em que você escrevia, suavemente doce, que com certeza estava impregnado naquele seu moletom branco que eu adorava me aconchegar.

Você nunca foi de demonstrar seu amor com palavras, sempre foi adepto do “fazer mais e falar menos”, então pra mim, ler esta carta foi um golpe certeiro bem na minha ferida, que, claramente, continuava aberta.

Não consigo entender como nossa história conseguiu dar tantas voltas e se enrolar tanto a ponto de dar um nó tão grande que nem todo o amor desse mundo conseguiu desfazer, um nó de desentendimentos e desencontros que ainda me dói quando paro pra pensar.

Pode ser que você nem pense mais em nós, ou melhor, o “nós” não existe mais já faz um bom tempo e eu sei disso. Mas eu gostaria de ver como seria tua reação ao ler essas mesmas palavras que você me escreveu naquele tempo. Será que você sentiria o mesmo que eu senti? Será que eu ainda estou entre as melhores pessoas que você conheceu? Será que você ainda se lembra de tudo aquilo que eu nunca vou esquecer?

Queria saber se você ainda é o mesmo de quando me escreveu esta carta ou o que mudou em você depois de tudo. Nossa história também te mudou? Não tenho notícias suas já faz um tempo, e tô aprendendo (talvez me obrigando) a viver com isso cada vez mais.

Não sei definir o que sobrou de mim depois de você, ou melhor, não sei descrever quantos pedaços de mim ainda faltam pra eu juntar, recolocar e colar, depois de você.

Você me ensinou a amar de um jeito que eu nem imaginei que fosse possível. Pode até soar meio ingênuo, mas eu não me sentia preparada pra amar ninguém do jeito que te amei, e talvez você também não.

Tua carta vai continuar guardada aqui no meu quarto, só que desta vez em outra gaveta bem mais bagunçada, onde ela merece estar, do jeito que foi nossa história. Quem sabe, quando eu criar coragem de novo e decidir organizar, organize com ela também todo esse amontoado de lembranças que você deixou espalhado, dentro das gavetas e do meu coração.

Advogada com alma de bailarina; uma sonhadora inconstante, meio cômica e distraída. Se perde em meio a tantos pensamentos esparsos, por isso tenta traduzir em palavras toda bagunça do seu coração incansável; na esperança de guiar e entender a loucura cotidiana de seus passos. Dona da página e do insta @escritascomcafe.

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