Sou sujeito simples. Aquele que inicia ou em alguns casos está perdido no meio da oração. Sou o sozinho, o não composto. O oculto ou indeterminado que assim como está ali, pode sumir e tudo fará sentido mesmo com a minha ausência.

Sou a primeira pessoa do singular, pronome pessoal do caso reto. Vago entre frases e textos tentando te encontrar. Até no último livro em que estive o cenário era bonito e te imaginei comigo, mas tu não estavas lá. Virei a página, li de novo. Orações compostas esfregavam na minha cara a satisfação de não estarem sós. As subordinadas me olhavam e tudo que eu mais queria era ser igual a elas, não fazer sentido sozinha e estar sempre acompanhada, não só seguida de mais um predicado qualquer que pode ou não ser favorável a mim.

Sou a conjunção adversativa que todos usam para contrariar. O advérbio de negação. O não vindo dos escritores. O predicativo que ofende. A preposição que torna tudo indireto e o aposto que explica, mas nunca é lembrado ou explicado.

Sou substantivo abstrato, verbo irregular sem radical ou intransitivo sem um complemento racional. Sou o artigo indefinido que deixa ideias vagas, o modo subjuntivo que sempre expressa alguma dúvida ou a forma subjetiva que apresenta diversas interpretações, mas nunca uma verdade específica.

Sou tantas coisas, e ao mesmo tempo sou tão pouco. Vivo rodeada de termos acessórios e essenciais que ajudam a complementar o meu sentido, já que não consigo sozinha. Ando em páginas, em ruas e em vidas, a procura de uma história que me aceite e me faça protagonista. Quero outro núcleo para o meu sujeito. Quero conjunções que me liguem a ti e adjuntos adverbiais de modo que tornem qualquer circunstância boa quando estamos juntos. Preciso de razões que completem minhas orações ou simplesmente façam valer a história vivida e escrita. Algo ou alguém que transforme o meu pretérito imperfeito em perfeito, até ser tão distante que ultrapasse as barreiras mais que perfeitas. Um olhar que atravesse a lombada do livro na estante, e me encare com vontade de ir adiante.

Mais uma adolescente vagando pelo mundo com o desejo de tocar o coração de alguém com palavras simples, fortes e verdadeiras.
Apaixonada por café e leitura, sigo o meu caminho escrevendo minha própria história, ou a sua, ou a de qualquer pessoa que me faça sentir!

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